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Narrativa em (de) tempos de crise

Atualizado em 26/04/20 11:46.

O curso pretende explorar as variações semânticas do conceito de crise em manifestações culturais da modernidade tardia que tomaram a forma de “narrativas”. R. Koselleck, submetendo a palavra “crise” à história dos conceitos, percebe algumas ressignificações fundamentais que o termo, em seusentido original, sofreu através de diferentes usos que lhe foram impingidos. Originalmente, “crise” era um termo médico que dizia respeito ao estado crítico e limiar de uma doença e sua instalação num corpo. No período moderno o termo sofreu algumas ressignificações fundamentais, primeiro através de sua utilização como metáfora e, em seguida, de sua relativa autonomização e transformação num conceito eminentemente temporal, no sentido de que oferece uma certa temporalização da história, dividindo-a em intervalos temporais mais ou menos bem delimitados. A desnaturalização do conceito de crise, assim alcançada por Koselleck, permitiu que se vislumbrasse o conceito de crise como tendo se transformado numa importante categoria filosófico-histórica do período moderno. Em consonância aos estudos de Koselleck, Charles Bambach nota como a palavra “crise” se dissemina nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX como um termo associado a um particular quadro ou horizonte de ideias que se deixa resumir em três conceitos fundamentais: de uma maneira geral, o termo crise se associava ao relativismo e ao niilismo decorrentes da autoconsciência filosófica do historicismo. Foi a própria constituição de uma visão de mundo essencialmente histórica, que passa a encarar todos os fenômenos do mundo como “em devir” e para a qual o devir se torna a única realidade, que engendrou, tanto no campo cognitivo, como no campo moral e daí para diversas esferas da cultura, a noção de que todo valor, incluindo o Bem e a Verdade, são relativos a seu tempo e lugar, a seu contexto, e são, por isso, essencialmente efêmeros, provisórios, arbitrários. O propósito da disciplina consiste em analisar “narrativas de crise” no contexto destacado por Bambach e enfatizar os elos de uma consciência de crise com as consequências relativistas e niilistas do historicismo. Tais narrativas, que, em geral, se expressam como uma reflexão sobre o ocaso de uma época e começo conturbado de um novo tempo, serão assim pensadas como documentos históricos que expressam uma certa “consciência de crise”, dirigida para diversos
setores da cultura: a moral, a política, o conhecimento, a arte. O foco da atenção se dará sobre textos clássicos do pré-guerra e do entreguerras, trazendo à luz as conexões entre uma consciência de crise neles expressa, por um lado, e a referência a implicações de teor de relativista, niilista ou historicista como fundamento velado dessa “consciência de crise”, por outro. A seleção dos textos-documentos atendeu, principalmente, a dois critérios: o direcionamento da
reflexão para um específico setor da cultura, por um lado, e a representatividade do texto no âmbito dos temas em questão. Nietzsche foi um dos primeiros autores a elevar o termo niilismo a conceito filosófico e a vinculá-lo de maneira explícita à intensificação da consciência histórica no período moderno. Daí a escolha de sua Segunda Consideração Intempestiva e de trechos de A Vontade de Poder, ambos os textos prenhes de expressões que conectam um diagnóstico de crise com o historicismo e com o niilismo. No campo das artes, em particular, a disciplina lidará com trechos de As Flores do Mal, de Baudelaire, assim como com os manifestos de algumas das mais representativas vanguardas europeias quando o assunto diz respeito à expressão de uma “consciência de crise”, como é o caso dos manifestos futurista, dadaísta e surrealista, escritos por Filippo Marinetti, Tristan Tzara e André Breton, respectivamente. Em todos eles aparece com variado grau de clareza uma “consciência de crise” votada ao mundo da “representação” e das formas artísticas. No campo da ciência e da filosofia, a conferência pronunciada por Max Weber em 1917, intitulada Ciência, expõe também de maneira contundente uma consciência de crise votada ao racionalismo científico como um todo, ameaçado não apenas pela guerra em curso e seus já visíveis resultados catastróficos, mas pela própria dinâmica da especialização científica e seu paradoxal “progresso”. Em paralelo ao texto de Ciência como Vocação e Profissão, também abordaremos trechos de A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental, de Edmund Husserl, em que também transparecem de maneira direta um diagnóstico de “crise” das ciências em conexão com as consequências relativistas do historicismo. No campo da política, o mesmo Max Weber
pronunciaria, em janeiro de 1919, após, portanto, a derrota da Alemanha na guerra, Política como Profissão e Vocação, radicalizando uma consciência de crise que, em função da guerra, já estava instalada no campo da política desde a Revolução Francesa e seus desdobramentos em todo continente europeu. No campo mais geral da cultura, Mal-estar na Cultura, publicado por Freud em 1930, e trechos de O Declínio do Ocidente, que Spengler publicou em 1922, trazem à tona, através de perspectivas completamente distintas, um diagnóstico de esgotamento da compatibilidade dos valores ocidentais modernos com a sanidade de indivíduos e com a sanidade da própria civilização ocidental. No campo da moral, dois autores, que elaboram leituras díspares e mesmo antagônicos do contexto da Segunda Guerra Mundial, farão parte dos textos a serem analisados, de modo a encerrá-la com essa discussão. São O Mito de Sísifo, e O Homem Revoltado, de Albert Camus, e Nas Sombras do Amanhã, de Johann Huizinga.